
Chutou a porta reclamando que eu não pagava as contas e não a fazia gozar, a lembrei que na juventude brincava com o ferrorama, sua boceta era o túnel por onde passavam vagões cheios de soldadinhos com armas escoradas no ombro rumo à guerra da Coreia defender a pátria, ela disse que não era Coreia, mas Vietnã, falei que era tudo a mesma merda e que não ia ler seu livro, um troço chamado "Os dentes do cavalo", nem que fosse Cervantes, o cavalo até dá pra entender, o pau enorme preencheria o túnel ferroviário, mas o negócio dos dentes é mais complicado, talvez por não comerem carne, aí não ficam aqueles fiapos fedorentos grudados nos molares, são higiênicos de certa forma, ela devia arrumar um cavalo pra fornicar, me ignorou fingindo ler, pensei naquela rua perto do fórum, ela não sabia o nome, é bem atrás, onde ficam os travestis e tem um muro pichado "Lembranças de Erexim, a cidade do pó", sei que lá mora uma daquelas estátuas vivas que vem pro centro atrás de um otário que lhe dê grana, ela disse que alguém deveria lhe dar uma surra, logo a cidade estará cheia de malabaristas, concordei, essa praga circense tem de acabar, eles vão chegando aos poucos, se instalam pra nunca mais sair, os palhaços são a maldição do mundo moderno, você pode olhar as putas na internet, loiras, morenas, ruivas, todas com olhar sacana, mas não é pra você que elas olham, é pra qualquer um, então sai pra rua e lá estão os palhaços, como a mil anos, assustando a todos com as mesmas caras brancas, de certa forma nos lembram que somos humanos, eu prefiro as putas da internet gemendo nas caixas de som, não leio, não leio e não leio, Os dentes do cavalo eu não leio, abra bem as pernas que o trem está apitando, vem carregado de soldados bêbados, sujos, chapados, armas em punho, longa viagem boceta adentro, escuridão úmida, calor do centro da terra, sonhei que você estava grávida e tinha um parto prematuro, olhava pra ele com pena, tão pequenino, num gesto maternal você engolia o feto que retornava ao útero, uma gestação depois ele nascia, perfeito, lindo, olhos castanhos, seu filho era eu, que sou trinta anos mais velho que você, tinha o rosto pintado, era um palhaço, você me deu o peito e me pendurou na parede pra marcar o tempo que não muda nunca, lá fiquei até hoje de manhã quando resolvi limpar a cara e começar a andar, tentei pegar o trem, os soldados me apontaram armas de brinquedo, eu via o túnel mas não podia chegar, aí você aparece com esse livro que nunca vou ler, fossem éguas eu leria, mas Clarice e Hilda já escreveram sobre elas, então entendo sua fixação por cavalos, é o pau enorme, diferente dos soldadinhos que entram em você quando o trem apita, não faça essa cara, escolha uma máscara no guarda roupas, só não pegue a de palhaço, vai assustar os soldados, eles são valentes mas não exagere, lembro daquela noite, Erexim ficou trinta gramas mais leve, trinta gotas, trinta quilômetros, não importa, tudo se resume em culpa e desespero, questão existencial só existe uma: quem come quem, os trilhos levam a um só lugar, você sabe do que estou falando, durma agora o sono inútil, uma hora vai acordar, passo as noites em claro, não sei se é insônia ou lembrança de Erexim, o resultado é o mesmo, olhos abertos como um cadáver sentado na varanda esperando alguém gentil que lhe feche as pálpebras e o deite num caixão, sem choros, velórios ou flores, tudo muito natural, as crianças com canivetes retirando partes do corpo, curiosas, levando a carne pra aula de biologia, quando sobrar só ossos deem aos cães e enterrem o caixão vazio com uma cruz fincada na terra protegendo aquele que foi, não é, nem está ali, mas tudo passa, é só pegar o trem, não é como se vive mas como se morre, não quero morrer sentado na privada de infarto fulminante, que eu seja devorado por uma leoa num safári africano, overdose de heroína numa ferrovia do México, mas isso não seria nada original, morrer com elegância não apagaria minha vida nublada, melhor velar seu sono, ele é inútil mas é seu, guarde-o numa caixa com os soldados e o ferrorama, memórias surgem em imagens convulsas, vivo as lembranças até a hora salvadora em que viram esquecimento, espero sentado a salvação, montada numa ampola de morfina, até lá olho pela janela, a hora não é grave mas o desejo é estrangulado e retorcido, os soldados são bonitos, enfileirados, todos iguais, parecem artistas de TV, só não esqueça que plástico que brilha não deixa de ser plástico, eu poderia subir no trem, penetrar seu universo escuro, mas você dorme e os soldados não são amistosos, me mostre um palhaço, quero ver que horas são, você podia acordar, sua consciência não é tranquila assim, não suporto essa quietude, é um silêncio que não dorme, insone como eu, silêncio vazio e sem promessa, é inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta se abrindo ou a cortina baixando, é desse silêncio que falo, você entende? Do silêncio sem lembrança de palavras, seco, imóvel, você podia prender o cabelo, mostrar o rosto, o sono lhe tirou todas as máscaras, com ele também se foi a vaidade, não durmo faz tempo, preciso de um espelho, ver meu rosto, ter certeza que ainda sou eu, não quero ser anônimo de mim mesmo, acordado tive um sonho, eu, que era seu filho, assisti a morte do seu pai, dez anos antes de você nascer, tudo faz sentido na cidade do pó, ou nas suas lembranças, não acorde agora, gosto da sua fragilidade, sua respiração lenta me conforta, saiba que há milhões de micróbios nos pulmões, mas tudo vira catarro e estamos salvos, é só cuspir, parir os intrusos, o trem anda em círculos, eu poderia desligar a tomada, quebrar os bonecos, mas decidi ficar em pé, andei até o espelho, vi um girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, rachado e ressecado pela fuligem e fumaça de velhas locomotivas, me vi ao seu lado, chapado e de olhos baixos, eu era só mais um soldado, esperando pra subir no trem.
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2 comentários:
Gosto de trens de brinquedo e odeio palhaços. Alguém precisa internar o Zé... ehehehe
Heheheheeh!
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