Cinema


A Condessa (Alemanha – 2009), refilmagem do filme de 1971, com Julie Delpy e Daniel Brühl, e este A Condessa De Sangue. ++

Música


“Tem gente que nasce rebelde. Lendo a história de Zelda Fitzgerald, identifiquei-me com seu espírito insubordinado. Lembro de passear com minha mãe +++

Literatura


Desde o início dos anos 80, David Byrne, aquele cara peculiar e pilastra central do Talking Heads, tem usado a bicicleta como principal forma de locomoção +++

Ensaio


Fazendo fundo para uma beldade tatuada em pose convidativa na cama está nada mais nada menos do que J. Cristo, finalmente assumindo sua porção... ++

Jingle Hell's


E eis que chega aquela época tão temida, o final de ano, com suas comemorações empresariais, presentes estranhos, ceia e árvore nevada com quarenta graus de calor e todas as outras mazelas. E, claro, as férias.
Sendo assim, nosso site também dá uma paradinha básica para tomar um fôlego, farejar novidades, descobrir novos crimes, angariar alguma experiência sexual e outras coisinhas mais. Nos vemos novamente em 15 de Janeiro. E, para cumprir o protocolo, sejam felizes durante as festas e no ano que vem também. Se possível, tentem perseguir o conceito de felicidade pela vida. Vai que dá certo, não é?


Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.

Fim de tarde

O céu anuncia chuva. Caminho em direção ao centro. Não gosto do centro, vou lá só pra me sentir idiota e resmungar sobre como deveria ficar em casa assistindo o poderoso chefão 2 no telecine Cult. Estava passando o Advogado do diabo, num outro canal. João é fissurado nesse filme, eu acho uma porcaria. Se for pra falar do demônio, prefiro Coração Satânico. Robert De Niro dirigido pelo Alan Parker. Puta filme! Essa noite dormi na casa da Taninha. Ela não gosta de cinema, mas eu não estava lá pra assistir filmes. Não entendo como ela faz aqueles truques! “Mágica sexual”, diz ela. Ontem mesmo, abriu as pernas e colocou duas colheres bem cheias de nescafé na buceta. Disse as palavras mágicas e puxou lá de dentro uma barra de chocolate meio amargo de 75 gramas! Acho que ele já estava lá dentro, mas não importa. Estava derretido, nos lambuzamos com o chocolate intruso e caímos de língua um no outro. Dormi e tive um sonho estranho. Sempre os tenho quando durmo chapado. Uma mulher andava por um corredor estreito, carregando uma bandeja. Estava indo alimentar os drogados. Não tenho certeza de que era uma enfermeira, mas pelas roupas brancas e o jeito de puta não poderia ser outra coisa. Gosto de enfermeiras. Até acho que deveria ser alimentado por uma. Ela viria com a bandeja, os olhos excitados, implorando por um caralho, não importa o tamanho ou espessura, as enfermeiras não são exigentes, basta que esteja rígido. João é porteiro do hospital e disse que elas usam uma calcinha eletrônica, que a cada 15 segundos libera uma descarga elétrica diretamente no clitóris, pra que suportem o dia sem fornicar com o primeiro doente que aparecer na frente. Assim são as enfermeiras. Conheci uma que morava no prédio que desabou na esquina da Brasil com a Marquês. A Aninha. Não sei se usava calcinha elétrica, mas tinha toda pinta. Não a comi, ela disse que não dava pra maconheiros. Nunca entendi essa restrição, acho que assim ela se sentia menos puta. Bem feito, o prédio caiu e soterrou a vadia. Logo depois, eu e João, completamente bêbados, criamos uma teoria sobre o prédio da Aninha. Um prédio que cai, não cumpre sua função existencial, portanto é um prédio impotente. Essa é a teoria do prédio brocha. Gosto de criar teorias, uma delas é a teoria da cobra morta: parece que está morta, mas é bom não colocar a mão... Me sinto um gênio quando crio uma teoria. Assim como acho genial o que a Taninha faz com o café e o chocolate, e como são geniais as enfermeiras. Passam o dia levando choques, devem gozar umas mil vezes por dia as cadelas! E depois do expediente tiram o equipamento e saem ansiosamente atrás dum caralho que as façam uivar da maneira tradicional. As médicas são como as enfermeiras, só mais sofisticadas. Costumam ingerir alguma substância pra acalmar a culpa. Lembro da doutora Elaine, que se chapava com clonezapan e haldol enquanto fazíamos fila para comê-la durante o exame médico do Clube do Comercio. A doutora voltava pra casa tonta e com a consciência tranquila, não lembrava quase nada, sentia apenas o cheiro forte da pele distendida pelo gozo, o pouco que recordava era suficiente pra voltar a fazer o mesmo no outro dia. Acho que a doutora Elaine não usava calcinha elétrica, este é um aparato de uso exclusivo das enfermeiras, que são ninfomaníacas incuráveis. Seria legal encontrar o João aqui no centro. Tomar uma ceva, fumar um baseado e voltar pra casa. Mas ele não está aqui. Costuma ficar na esquina do banco, olhando as mulheres que caminham devagar pra mostrar o corpo. Tenho nojo dessas vagabundas. Oferecem mas não deixam pegar. Maldito moralismo cristão! Prefiro as enfermeiras que são putas sinceras! Final de semana é assim, todo mundo vem pro centro ficar sem fazer nada, desfilando pelas calçadas estreitas. Cidade de merda! Eu queria morar em Amsterdam. Não sei como são as enfermeiras de lá, mas devem ser parecidas com as daqui. É uma confraria internacional: as putas de jaleco. Melhor voltar pra casa antes que a chuva caia, talvez ainda consiga assistir o filme na TV.



Sobre o Autor:
José Sergio Bechler Seu sonho mais íntimo é ser um terrorista sem causa. Enquanto esse dia não chega, escreve contos por aí. Leia em Sarapatel Psicodélicohttp://sarapatelpsicodelico.blogspot.com/.

Afraid of me

"Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração."




(Belchior, Pequeno Mapa Do Tempo)




Do que você tem medo?


Medo da morte?


Medo do escuro?


Medo da solidão?


Medo de ter medo?


Pois eu tenho medo de cobras.


O f i o f o b i a.


Sim, tenho pavor, pânico, perco o controle mesmo.


E olha que nem vi cobra sem ser no serpentário do Instituto Butantã ou no Discovery Channel.


Porém só de ver, aliás, só de imaginar aquelas coisas rastejantes, venenosas, cheias de escamas, com seus hábitos furtivos e desconfiados... ah, nem sei explicar.

Não só quando vou a um matagal, mas qualquer gramado, quintal, onde não houver que concreto eu uso minhas botas.


Às vezes tenho pesadelos com centenas de serpentes invadindo minha casa, meu quintal, tudo; aí acordo desesperado, sem fôlego, e passo o resto do dia tenso, subindo nas paredes por qualquer coceira na perna, qualquer coisa me roçando, e fico verificando gavetas, armários, roupas... elas podem estar em qualquer lugar.


Por isso não foi surpresa pra mim quando, naquela festa de final de ano da empresa, com amigo-secreto, quando já estava todo mundo bêbado, quando um colega fez uma “brincadeira”, me dando uma caixa com uma daquelas cobras que pulam em cima de você, sabe? Quando ele fez isso devia saber que eu entraria em pânico.


Não foi surpresa pegar uma cadeira e espancá-lo. Agora, injustiça é ele estar solto – só um tanto desfigurado, nada que um monte de cirurgias não resolva – e eu, inocente, vítima, fui condenado a mofar na prisão.


Pelo menos aqui ninguém mexe comigo, só comentam que sou “o cara das cobras”.
Sobre o Autor:
Fábio Vanzo Fábio Vanzo por ele mesmo: a versão paulistana de Patrice Mersault. Em Fábio Vanzo.