
Dormia. Sono agitado, intranquilo. No sonho, o telefone toca. Ela atende. Alguém fala que o amigo mais querido está internado em uma clínica psiquiátrica. Teve um surto e chama insistente e desesperadamente por ela. A voz é de homem, parece um dublador de filmes, uma voz familiar demais, mas ela não identifica. Meio atordoada ainda, tentando pensar com clareza, pergunta onde fica a clínica. O homem do outro lado da linha dita um endereço. Ela anota e diz que chegará o mais rápido possível. Ela, então, levanta-se da cama e escolhe um vestido vermelho e sandálias douradas de saltos altos, prende os cabelos, passa batom – vermelho, como o vestido – e sai. No caminho, as ruas todas apresentam um tom entre sépia e alaranjado, com uma luz desmaiada surgindo no horizonte. Ela ri. No sonho, ela ri. O carro é conversível e não há nenhum traço de brisa no rosto. Olha em volta e nada se movimenta além do carro e dela própria. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. Já na clínica. A recepção tem os mesmos tons de sépia desmaiada com alaranjado que havia nas ruas. Não há ninguém na mesa onde deveria haver um atendente. Na parede, um quadrinho com aquela foto clássica da enfermeira com o dedo indicador em frente aos lábios pedindo silêncio. A enfermeira da foto na parede usa batom vermelho. Ela espera e espera. Ninguém aparece, nada se move, nenhum som. Senta-se em uma das cadeiras que ficam na parede oposta ao balcão. Muito ereta, o vestido vermelho fazendo dobras harmoniosas contra a cadeira cinza e sem graça. Olha fixamente os ponteiros do relógio que fazem voltas e voltas ao contrário. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. Uma música, como as que tocam em elevadores, começa a sair da pequena caixa de som que fica acima do balcão. Uma porta que leva a um corredor se abre deixando entrever apenas o escuro. Um homem coloca o rosto pela fresta da porta e acena para ela. Ela acena de volta e tenta sorrir. Sente uma imensa culpa por estar tão arrumada naquele ambiente, não saberia explicar o motivo de estar vestida assim. O homem, agora, mostra o tronco pela porta entreaberta. Está com um estranho jaleco branco com botões laterais. Lembra um chef de cozinha. Tem os olhos escuros, nariz adunco e olheiras profundas. O cabelo, também escuro, está esticado para trás como que carregado de algum gel ou coisa assim. Tem entradas. Ela pensa que ele logo será careca. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. O homem aparece inteiro agora, a porta aberta pela metade. Ele lembra um ator de uma dessas peças com ambientação bizarra e assustadora. Usa calças brancas e chinelos de couro vermelhos com uns enfeites esquisitos. Parecem dentes cravados no couro dos chinelos, os lados posteriores abertos como pequenas feridas sangrentas. Faz um gesto que ela imagina ser um chamado. Hesita um pouco, mas acaba por atender. Quer que ela o siga pelo corredor escuro. Ela vai. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. O corredor não é totalmente escuro como ela imaginou. Há pequenas luzes que parecem sair de algum lugar das pareces em intervalos regulares. Nas partes em que a luz permite que algo seja visto, vê que as paredes são recobertas por alguma coisa viva, orgânica, de consistência viscosa e cor marrom brilhante. O corredor parece infinitamente longo e ela percebe que vai ficando mais e mais estreito a cada passo. O homem se volta algumas vezes para trás e lhe dirige um estranho sorriso com o canto dos lábios, um sorriso que não mostra os dentes. Ela imagina se os dentes que estão nos chinelos são dele ou de outra pessoa. O corredor continua e continua e parece cada vez mais estreito e úmido, as paredes mais perto. O chão, agora, também é pegajoso. O homem sorri novamente e diz que logo chegarão ao quarto e ela poderá ver seu amigo. Ele tira a mão do bolso e mostra o bisturi sujo de um líquido brilhante e escuro. Ela sorri e agradece, enternecida. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. Ela acorda, a roupa encharcada de suor. O telefone toca com insistência. Ela espanta a angústia, a confusão, a inércia e atende. Uma voz do outro lado da linha diz que o amigo mais querido está internado em uma clínica psiquiátrica e chama desesperadamente por ela. Na realidade as coisas são assim, estranhas.
5 comentários:
Monolítico.
Sem mais.
Quando lemos algo e aquilo parece realmente um relato, aquilo nos faz isso nos faz ver que a realidade é estranhamente abstrata.
Impecavel, pra variar.
Sonho e realidade divididos por uma linha tênue e estranha. Sabia que ía dar boa coisa, ruiva, parabéns pelo conto, very good.
Opa! Ha tempos não lia um conto bom assim! dá-lhe Denise!
Thanks, serials
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