Há noites em que ela parece deitar sobre si mesma esperando os culhões de algum deus cheirando a morto. Fica um vácuo, um respiro, só dá pra sentir o tempo lhe enrabando por trás, cada dia o cu mais rasgado, então você se dá conta que o tempo é insaciável, cada instante lhe arrancando um pedaço de carne num coito forçado que só a morte interrompe. Eu passo pelo tempo e sinto os anos perdidos atrás da chance que nunca se revelou. Não há nada a ser revelado, tudo está na epiderme, nenhum outro lugar. Ninguém na rua que precisasse de mim. Da minha pica, meu cu, minha boca. Nenhuma bicha, nenhuma velha cuja autoestima ficou lá pelos trinta e precisasse lavar no rabo e apanhar na cara pra sentir o fluxo quente na espinha. A multidão de quase felizes recolhida, vida que podia ter sido e não foi por detalhes unidos, suficientes pra estragar tudo. Quando a cidade não me procurava ia até Rodolfo, na madrugada, livre do expediente do sacerdócio, sempre me acolhia, e na semi escuridão da catedral se ajoelhava pedindo que acariciasse as pernas de Cristo e eu acariciava, chupava minha pica pedindo pra lamber as coxas do salvador, eu lambia, enquanto eu gozava ele umedecia de sêmen o torso nu de deus moldando uma cena santa, então tudo era santo: santo aquele homem chupando minha pica, santos meus lábios roçando a pedra imprimindo a saliva, santo friccionar da pele naquela casa distante da vida. Cheguei ao apartamento, Berenice estava morta, deitada no carpete puído. A boca fechada, lábios encenando uma paz que não houvera em vida. Lá fora o sol era a mesma fruta de sempre. Não queria Berenice naquele repouso ilusório que mortifica a memória do morto. A morte é casta. Queria não mentir, chegar perto, cuspir nela boca adentro, sujar a morte com a mesquinhez do meu ódio, denunciar a pequeneza da vida. Não foi preciso. A coloquei no sofá, as pernas viscosas de porra. Era acostumado ver minha mulher coberta com sêmen de outros. Porra é sinal de trabalho. Entre bater cartão quatro vezes ao dia e dar o cu não havia dúvidas: dar o cu. Berenice mexeu as pernas, estava viva, de olhos fechados colocou a mão na coxa deslizando os dedos à virilha. Dormia esgotada pela vida, via seu corpo derrotado e a mão lenta acariciar a boceta. Era minha garota.
O céu clareou quente e cheio de moscas. Ela falava alguma coisa sobre me amar e o mundo estar morrendo à míngua. Eu só ouvia. Não queria compromisso com respostas. Dizia estarmos sem um puto, fodendo dia todo e ainda existir um Estado sobre nossas cabeças. Quando falava assim, havia qualquer coisa de provocação na voz dela, como se um desespero até ali surdo fosse arrebentar de repente em cima de mim. Deixei Berenice na cama, fui à praça arrumar algum. Sentei próximo aos banheiros. Uma bicha circulava de bicicleta, botei pra fora, ele veio, começou uma punheta ali mesmo, eu em pé, ele na bicicleta, ejaculei em suas pernas. Antes de retomar o fôlego vi a bicha em velocidade praça adentro. Voltei pra casa. Tinha encontrado o espelho do meu limite. Roubado por uma bicha na praça XV. A foda paga, resolvida e consumada era só lembrança. Apareceu um cara dos seus trinta e poucos, camisa fora das calças. Entrou como se atravessasse a linha do decoro, sondava nossa miséria, curiosidade irritante. Berenice disse pra ficar à vontade, fui pro cômodo ao lado. Ela tirou o roupão ele olhando, ela deitou no sofá, nua com um tubo de xampu na mão. Ele olhava acanhado, devia ser funcionário de alguma multinacional, alguém que recebia ordens, alguém que baixava os olhos ao ver a própria cara no espelho, alguém muito sozinho. Ela metia o tubo na boceta e olhava com cara de rampeira até ele tomar coragem e começar uma punheta. Caminhei quieto até a janela. A rua estava coalhada de lixo, cachorros, gente, vida. Berenice e eu sempre moramos no mesmo apartamento de um quarto na zona norte. Esperei o cara sair e voltei pra sala. Ele tinha deixado cinquenta contos, grana que eu já não trazia pra casa, que fosse trinta, vinte, qualquer dinheiro, qualquer quantia.
Travestis, putas, michês, faziam ponto na calçada. Olhava o movimento, um punk pichou NINGUÉM ESTÁ SALVO QUANDO A REALIDADE SUPERA A FICÇÃO na fachada do Elegance. Nunca quis ser salvo porra alguma. Berenice e eu vivíamos sem passado ou futuro, acordávamos todas manhãs sem dever vergonha a ninguém. Salvação, esperança, compaixão: formas de apanhar na cara, sodomia, pedir perdão. Realidade é pica. Ficção, chafariz de porra. Os punks já foram mais espertos. Berenice se arrumava pro trabalho na frente do espelho. O traço do rímel levemente oblíquo, o pente nos cabelos úmidos. Eu pensava que aquele corpo seria estranhado por outro homem. Doía o silêncio dela em frente ao espelho, a boca pintada por batom barato, os dentes estragados por cigarros sucessivos. Brincava com meu pau inerte sobre o lençol. Meu pau em repouso é bonito, mais que duro. Ela saiu, tentei falar alguma coisa, ela não queria falar, queria ficar na ostra do silêncio até seu calvário acabar. Ela também não aguentava mais o trabalho, seu corpo daria conta por mais um ano, talvez dois. Parei de bolinar o pau, me sentia um trapo, ela trabalhando por nós dois. Fui atrás do padre, sempre disponível na solidão. Entrei pelos fundos, fui ao altar formar a cena santa, ele queria mostrar o quarto, saímos do palco, entramos nas coxias do templo, tiramos a roupa, ele tocou meu braço, fui alisando seu corpo sem dar governo a mão, beijei os lábios grossos e vermelhos, pescoço, peito, fui descendo os beijos enquanto com a mão abria a braguilha. Senti a maciez do pau que ainda intumescia, ele mexia a bacia de cima pra baixo, todo instante do mundo estava em minha boca, tirei pra fora e começamos a nos masturbar ao mesmo tempo num trote sem destreza a ponto da masturbação expulsar cada vez mais intensamente todas as minhas dores e ficamos no único ritmo de todos aqueles movimentos entre eu e ele que roçava o pau nos meus cabelos até que comecei a sentir que a golfada da minha porra se preparava pra explodir, então como num choque único, sua ejaculação bateu no meu olho, a minha escorria pelos dedos. Depois, os corpos no plausível mais nada do sono que se fez entre nos dois. Rodolfo me acordou às quatro da manhã, eu tinha que sair, cedo começava preparar a missa. Dar o cu, fazer sinal da cruz, todos tem seu trabalho. Calcei as botas, ele estendeu a mão alcançando cem contos. O tempo cria muitas distâncias, já ia muito que não via tanta grana. Primeiro com mulheres dando uma de independentes pra cima dos maridos, depois as solitárias, dando uma de independentes pra cima delas mesmas, as velhas, que não querem ser independentes de ninguém, até chegar nas bichas. Depois nada. Às vezes a fome é só ferrugem na garganta. Como é difícil viver sem um trago, um cigarro. Comprei um conhaque, uns maços e fui pra casa. Berenice estava no carpete, morta. Senti sua respiração, bebi em goles convulsos. Meus olhos fecharam tranquilos. Um novo dia lá fora. Não dormi, não sonhei. Velei o sono dela. De olhos fechados escrevi o Tratado do sono. Berenice imersa no sono é a mais bela de sempre porque nela o que resta de beleza nunca esteve em ninguém tão resplandecido de morte. Pra ela a hora é coagulada, não aguenta mais a vida, essa cidade, o desgaste irreparável, se suspende no sono pra se recuperar de si mesma como quando a conheci. Ela saiu de mim e eu dela. Logo depois fingimos que nos conhecíamos pela primeira vez e viemos andando até aqui por absoluta incapacidade de aderir ao que nos foi oferecido. A grana do padre ia durar uns três dias, quatro talvez. Ficaríamos sem trabalhar, eu e ela somente um do outro, fumando, bebendo, fodendo, rindo, falando. Não lembrava a última vez em que ficamos assim, sós. Sempre a merda da grana atrapalhando, eu já não trazia nenhuma pra casa, o tempo pronto pra ejacular em mim, Berenice ia arrumar outro mais jovem, não por não gostar de mim, não me amar, é preciso viver e só, restava o instante rasgado, foder do jeito que fosse era a saída pra mim, recebendo o dinheiro que fosse, qualquer quantia, qualquer moeda, trepando, levando, chupando, fodendo, lambendo a carne do mundo.
Sobre o Autor:
![]() | Seu sonho mais íntimo é ser um terrorista sem causa. Enquanto esse dia não chega, escreve contos por aí. Leia em Sarapatel Psicodélicohttp://sarapatelpsicodelico.blogspot.com/. |



















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