Cinema


A Condessa (Alemanha – 2009), refilmagem do filme de 1971, com Julie Delpy e Daniel Brühl, e este A Condessa De Sangue. ++

Música


“Tem gente que nasce rebelde. Lendo a história de Zelda Fitzgerald, identifiquei-me com seu espírito insubordinado. Lembro de passear com minha mãe +++

Literatura


Desde o início dos anos 80, David Byrne, aquele cara peculiar e pilastra central do Talking Heads, tem usado a bicicleta como principal forma de locomoção +++

Ensaio


Fazendo fundo para uma beldade tatuada em pose convidativa na cama está nada mais nada menos do que J. Cristo, finalmente assumindo sua porção... ++

Bowie, the alien

Um alienígena (David Bowie) vem à Terra e adota o disfarce de um homem de negócios, Thomas Jerome Newton. O objetivo é levar água da Terra  para o seu planeta, onde sua esposa e filhos estão morrendo lentamente. 


Ele utiliza a tecnologia avançada que traz consigo para ganhar bilhões de dólares, que serão necessários para construir a espaçonave que irá levá-lo de volta para casa junto com a água. Mas o gentil Newton não está preparado para a ganância e a crueldade de seus novos colegas de negócios e rivais, e logo descobre que a missão será muito mais difícil do que ele havia imaginado.




Este é o enredo de O Homem que Caiu na Terra. A década de 1970 foi pródiga em filmes de ficção científica, e em 1976, um ano antes de Guerra nas Estrelas levar o gênero para o caminho da aventura arrasa-quarteirão, Nicholas Roeg dirigiu este filme cerebral   Pela trama, o filme parece ser um descendente direto de O Dia em que a Terra Parou e um antecessor de E. T. – O Extraterrestre – contudo, há uma distância considerável neste caminho.



Bowie é magnífico no papel. No auge da androginia, com voz grave e sotaque britânico, dá ao personagem a estranheza necessária. A linguagem minimalista alivia consideravelmente a falta de tecnologia e efeitos,, e o figurino com muito plástico é charmoso e inquietente. Tipicamente setentista, o ar de 'futuro pretérito', como em Laranja Mecânica, data o filme, mas não fazem com que perca a força.




Claro, existem as perguntas. Por que uma civilização com capacidade de viajar mais rápido que a luz não consegue extrair água da atmosfera? Por que Newton precisa que os cientistas da Terra inventem um veículo para levá-lo de volta ao seu planeta, quando bastaria que ele lhes desse os esquemas da nave que certamente o trouxe à Terra? Porém, o que importa, se temos Bowie em cena na pele de um alien excêntrico e intrigante. É um clássico B.



Não falta, também, a edição lisérgica da época, assim como um roteiro que hoje seria considerado confuso, mas à época era somente original. Enfim, vale a diversão, valem algumas cenas plasticamente muito boas e o camaleão no cinema, que é sempre uma experiência interessante.


Título original: The Man Who Fell To Earth
Ano: 1976
Tempo: 133min
Censura: 12 anos
País: Reino Unido
Formato de Tela: Widescreen
Região: 4
Legenda: Espanhol, Inglês, Português
Aúdio:

Produtora: Universal Pictures


.Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.

Travis, infância e bichos humanos


Quando era criança, ganhei um baralho de cartinhas para jogar memória com ilustrações muito estranhas. Eram animais vestidos em roupas humanas em situações humanas e com feições humanas. Na verdade, pareciam personagens saídos da mesa do chapeleiro louco. Aliás, alguns tomavam chá em pequenas xícaras  decoradas com flores azuis, ou usavam óculos de aros dourados. Lembro de uma cabra de vestido longo e chapéu que era realmente sinistra. As figuras causam  mal estar  e indiscutível fascínio. Nunca mais vi minhas cartinhas, nem senti a mesma coisa .... até me deparar com a obra de Travis Louie. 

Talvez pela lembrança da infância, ou por me despertar aquela mesma sensação, acabei me tornando fã incondicional do trabalho do cara. O próprio Travis conta que passou a infância em NY assistindo a filmes de terror e ficção científica das décadas de  1960 e 1950. Inspirado por esses filmes, desenhava monstros e outras criaturas. Acabou por se tornar ilustrador e, mais tarde, passou a colocar em exposições suas criaturas humanoides inspiradas na Era Vitorina que parecem ter saído de uma máquina do tempo com algum tipo de defeito técnico.



Algumas ilustrações trazem até um pequeno histórico sobre quem foi a ilustre figura, como a simpática Miss Bunny da foto abaixo, "que teve a família devorada por lobos e foi adotada por ingleses ricos, tornou-se atriz e uma das últimas representantes da Monarquia dos Sea Monkeys".





Vale conhecer e perder horas viajando nos detalhes e nas biografias fantásticas dos personagens. 



Para conhecer mais, visite www.travislouie.com
.Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.

Comida de garçons

  Ela nunca disse o nome verdadeiro, era Berenice e estava bom, guardava o nome como se preservasse um passado que era história, falava das casas de massagem da zona sul e saía toda noite pegar homem na rua, já era puta de calçada. Às vezes eu a seguia, ontem a vi conversando com um cara e entrar com ele num terreno baldio. Na esperança de ganhar algum, parei na esquina da Getúlio com a Bento Sá, botei a mão por dentro da calça, endureci o pau, fiquei até as cinco da manhã e nada, pensei logo que estava envelhecendo como ela, tinha meus sulcos na cara, barriga inchada, olhos nublados. Os carros passavam, tinha um cigano faturando uma grana, estacionavam, batiam uma bronha, faziam um boquete, eu parado lá, pau duro na mão, me sentindo um velho prematuro, descartado, murcho naquele jardim de flores neons. Playboys histéricos, acelerando com as caras cobertas pela chuva láctea.
Há noites em que ela parece deitar sobre si mesma esperando os culhões de algum deus cheirando a morto. Fica um vácuo, um respiro, só dá pra sentir o tempo lhe enrabando por trás, cada dia o cu mais rasgado, então você se dá conta que o tempo é insaciável, cada instante lhe arrancando um pedaço de carne num coito forçado que só a morte interrompe. Eu passo pelo tempo e sinto os anos perdidos atrás da chance que nunca se revelou. Não há nada a ser revelado, tudo está na epiderme, nenhum outro lugar. Ninguém na rua que precisasse de mim. Da minha pica, meu cu, minha boca. Nenhuma bicha, nenhuma velha cuja autoestima ficou lá pelos trinta e precisasse lavar no rabo e apanhar na cara pra sentir o fluxo quente na espinha. A multidão de quase felizes recolhida, vida que podia ter sido e não foi por detalhes unidos, suficientes pra estragar tudo. Quando a cidade não me procurava ia até Rodolfo, na madrugada, livre do expediente do sacerdócio, sempre me acolhia, e na semi escuridão da catedral se ajoelhava pedindo que acariciasse as pernas de Cristo e eu acariciava, chupava minha pica pedindo pra lamber as coxas do salvador, eu lambia, enquanto eu gozava ele umedecia de sêmen o torso nu de deus moldando uma cena santa, então tudo era santo: santo aquele homem chupando minha pica, santos meus lábios roçando a pedra imprimindo a saliva, santo friccionar da pele naquela casa distante da vida. Cheguei ao apartamento, Berenice estava morta, deitada no carpete puído. A boca fechada, lábios encenando uma paz que não houvera em vida. Lá fora o sol era a mesma fruta de sempre. Não queria Berenice naquele repouso ilusório que mortifica a memória do morto. A morte é casta. Queria não mentir, chegar perto, cuspir nela boca adentro, sujar a morte com a mesquinhez do meu ódio, denunciar a pequeneza da vida. Não foi preciso. A coloquei no sofá, as pernas viscosas de porra. Era acostumado ver minha mulher coberta com sêmen de outros. Porra é sinal de trabalho. Entre bater cartão quatro vezes ao dia e dar o cu não havia dúvidas: dar o cu. Berenice mexeu as pernas, estava viva, de olhos fechados colocou a mão na coxa deslizando os dedos à virilha. Dormia esgotada pela vida, via seu corpo derrotado e a mão lenta acariciar a boceta. Era minha garota.
O céu clareou quente e cheio de moscas. Ela falava alguma coisa sobre me amar e o mundo estar morrendo à míngua. Eu só ouvia. Não queria compromisso com respostas. Dizia estarmos sem um puto, fodendo dia todo e ainda existir um Estado sobre nossas cabeças. Quando falava assim, havia qualquer coisa de provocação na voz dela, como se um desespero até ali surdo fosse arrebentar de repente em cima de mim. Deixei Berenice na cama, fui à praça arrumar algum. Sentei próximo aos banheiros. Uma bicha circulava de bicicleta, botei pra fora, ele veio, começou uma punheta ali mesmo, eu em pé, ele na bicicleta, ejaculei em suas pernas. Antes de retomar o fôlego vi a bicha em velocidade praça adentro. Voltei pra casa. Tinha encontrado o espelho do meu limite. Roubado por uma bicha na praça XV. A foda paga, resolvida e consumada era só lembrança. Apareceu um cara dos seus trinta e poucos, camisa fora das calças. Entrou como se atravessasse a linha do decoro, sondava nossa miséria, curiosidade irritante. Berenice disse pra ficar à vontade, fui pro cômodo ao lado. Ela tirou o roupão ele olhando, ela deitou no sofá, nua com um tubo de xampu na mão. Ele olhava acanhado, devia ser funcionário de alguma multinacional, alguém que recebia ordens, alguém que baixava os olhos ao ver a própria cara no espelho, alguém muito sozinho. Ela metia o tubo na boceta e olhava com cara de rampeira até ele tomar coragem e começar uma punheta. Caminhei quieto até a janela. A rua estava coalhada de lixo, cachorros, gente, vida. Berenice e eu sempre moramos no mesmo apartamento de um quarto na zona norte. Esperei o cara sair e voltei pra sala. Ele tinha deixado cinquenta contos, grana que eu já não trazia pra casa, que fosse trinta, vinte, qualquer dinheiro, qualquer quantia.
Travestis, putas, michês, faziam ponto na calçada. Olhava o movimento, um punk pichou NINGUÉM ESTÁ SALVO QUANDO A REALIDADE SUPERA A FICÇÃO na fachada do Elegance. Nunca quis ser salvo porra alguma. Berenice e eu vivíamos sem passado ou futuro, acordávamos todas manhãs sem dever vergonha a ninguém. Salvação, esperança, compaixão: formas de apanhar na cara, sodomia, pedir perdão. Realidade é pica. Ficção, chafariz de porra. Os punks já foram mais espertos. Berenice se arrumava pro trabalho na frente do espelho. O traço do rímel levemente oblíquo, o pente nos cabelos úmidos. Eu pensava que aquele corpo seria estranhado por outro homem. Doía o silêncio dela em frente ao espelho, a boca pintada por batom barato, os dentes estragados por cigarros sucessivos. Brincava com meu pau inerte sobre o lençol. Meu pau em repouso é bonito, mais que duro. Ela saiu, tentei falar alguma coisa, ela não queria falar, queria ficar na ostra do silêncio até seu calvário acabar. Ela também não aguentava mais o trabalho, seu corpo daria conta por mais um ano, talvez dois. Parei de bolinar o pau, me sentia um trapo, ela trabalhando por nós dois. Fui atrás do padre, sempre disponível na solidão. Entrei pelos fundos, fui ao altar formar a cena santa, ele queria mostrar o quarto, saímos do palco, entramos nas coxias do templo, tiramos a roupa, ele tocou meu braço, fui alisando seu corpo sem dar governo a mão, beijei os lábios grossos e vermelhos, pescoço, peito, fui descendo os beijos enquanto com a mão abria a braguilha. Senti a maciez do pau que ainda intumescia, ele mexia a bacia de cima pra baixo, todo instante do mundo estava em minha boca, tirei pra fora e começamos a nos masturbar ao mesmo tempo num trote sem destreza a ponto da masturbação expulsar cada vez mais intensamente todas as minhas dores e ficamos no único ritmo de todos aqueles movimentos entre eu e ele que roçava o pau nos meus cabelos até que comecei a sentir que a golfada da minha porra se preparava pra explodir, então como num choque único, sua ejaculação bateu no meu olho, a minha escorria pelos dedos. Depois, os corpos no plausível mais nada do sono que se fez entre nos dois. Rodolfo me acordou às quatro da manhã, eu tinha que sair, cedo começava preparar a missa. Dar o cu, fazer sinal da cruz, todos tem seu trabalho. Calcei as botas, ele estendeu a mão alcançando cem contos. O tempo cria muitas distâncias, já ia muito que não via tanta grana. Primeiro com mulheres dando uma de independentes pra cima dos maridos, depois as solitárias, dando uma de independentes pra cima delas mesmas, as velhas, que não querem ser independentes de ninguém, até chegar nas bichas. Depois nada. Às vezes a fome é só ferrugem na garganta. Como é difícil viver sem um trago, um cigarro. Comprei um conhaque, uns maços e fui pra casa. Berenice estava no carpete, morta. Senti sua respiração, bebi em goles convulsos. Meus olhos fecharam tranquilos. Um novo dia lá fora. Não dormi, não sonhei. Velei o sono dela. De olhos fechados escrevi o Tratado do sono. Berenice imersa no sono é a mais bela de sempre porque nela o que resta de beleza nunca esteve em ninguém tão resplandecido de morte. Pra ela a hora é coagulada, não aguenta mais a vida, essa cidade, o desgaste irreparável, se suspende no sono pra se recuperar de si mesma como quando a conheci. Ela saiu de mim e eu dela. Logo depois fingimos que nos conhecíamos pela primeira vez e viemos andando até aqui por absoluta incapacidade de aderir ao que nos foi oferecido. A grana do padre ia durar uns três dias, quatro talvez. Ficaríamos sem trabalhar, eu e ela somente um do outro, fumando, bebendo, fodendo, rindo, falando. Não lembrava a última vez em que ficamos assim, sós. Sempre a merda da grana atrapalhando, eu já não trazia nenhuma pra casa, o tempo pronto pra ejacular em mim, Berenice ia arrumar outro mais jovem, não por não gostar de mim, não me amar, é preciso viver e só, restava o instante rasgado, foder do jeito que fosse era a saída pra mim, recebendo o dinheiro que fosse, qualquer quantia, qualquer moeda, trepando, levando, chupando, fodendo, lambendo a carne do mundo.



Sobre o Autor:
José Sergio Bechler Seu sonho mais íntimo é ser um terrorista sem causa. Enquanto esse dia não chega, escreve contos por aí. Leia em Sarapatel Psicodélicohttp://sarapatelpsicodelico.blogspot.com/.

Spitting games

- Ana?
- João.
- Se lembra daquele dia que você caiu da minha janela?
...- Com certeza, você pulou atrás de mim.
- É. Você quase quebrou seu pescoço, bateu a cabeça e tinha sangue por todos os lugares. Embrulhei sua cabeça com a minha camisa e te levei pro hospital. Se lembra?
- Sim, eu me lembro.
- Tem algo que eu nunca te falei sobre esse dia.
- O que você não me contou?
- Enquanto você estava desesperada, sentada no banco de trás do carro, pensando que ia morrer, fumando como se fosse o último cigarro da sua vida, eu me apaixonei por você.
- João?
- Ana.
- Eu tenho uma cicatriz do dia que você se apaixonou por mim. Quer ver?


Sobre o Autor:
Jana Lisboa O Plano A de Jana é ser literalmente inteligente, superficial, misteriosa, psicótica, magra, sexy e irônica, personificando o Esqueleto rindo no topo da montanha nos episódios de He-man. Sunflower Records.

A condessa de sangue


Estranho que, até hoje, uma história tão interessante como a de Erzsébet Báthory só tenha virado filme uma vez (o obscuro A Condessa Drácula – EUA, 1971) e, mais estranho ainda, que neste final de década tenham surgido dois filmes sobre o mesmo tema: o alemão A Condessa (Alemanha – 2009), refilmagem do filme de 1971, com Julie Delpy e Daniel Brühl, e este A Condessa De Sangue.

Nessa produção da TV eslovaca (na época da condessa o império húngaro se estendia por vários países, e ela ficava onde hoje é a Eslováquia), Erzsébet, famosa por supostamente ter matado várias virgens, a mando de uma bruxa, e se banhar no sangue delas (o que lhe valeu a alcunha de vampira até hoje), a fim de se manter sempre jovem, é mostrada como uma mulher forte, decidida, impiedosa no meio de homens brutos e cruéis em guerra entre si e contra os mouros na Europa oriental do século 17.


Apesar do ritmo lento, a história envolve não só pelo tema, mas pela beleza das imagens (a fotografia é belíssima, cheia de tons avermelhados, por motivos óbvios) e pela curiosidade de, seguindo a linha de historiadores contemporâneos, questionar se sua condenação não passou de uma armação dos rivais da nobreza para tirá-la do caminho e unir os húngaros com os habsburgos da Alemanha.


O único senão, aliás um grande SENÃO, fica por conta de um romance dela com o pintor Caravaggio, então um jovem. Nunca ouvi falar disso na biografia de nenhum dos dois, e não achei nada sobre isso mesmo após pesquisar bastante. Mesmo assim vale a pena conferir.

PS: Já no Black metal o tema já foi amplamente explorado: além dos pioneiro Venom (Inglaterra) com “Countess Bathory, do sueco Bathory, que também fez uma música chamada “Woman Of Dark Desires”, também os húngaros do Tormentor (depois regravados pelo sueco Dissection) lançaram “Elizabeth Bathori” e os ingleses do Cradle Of Filth, famosos pelas temáticas vampirescas, lançaram um disco inteiro sobre ela, chamado “Cruelty And The Beast”.

A Condessa De Sangue (Eslováquia - 2008)
Título original: Bathory
Direção: Juraj Jakubisko
Elenco: ninguém digno de nota



Sobre o Autor:
Fábio Vanzo Fábio Vanzo por ele mesmo: a versão paulistana de Patrice Mersault. Em Fábio Vanzo.

Byrne e a bicicleta

Desde o início dos anos 80, David Byrne, aquele cara peculiar e pilastra central do Talking Heads, tem usado a bicicleta como principal forma de locomoção em Nova York, cidade onde vive. Quando viaja ou sai em turnê, ele sempre leva consigo uma bicicleta dobrável. A princípio, tal decisão foi tomada por mera conveniência. No entanto, quanto mais cidades visitava, mais o músico se tornava adepto desse meio de transporte. Passeou pedalando por lugares como Berlim, Buenos Aires, São Francisco, Manila, Istambul e etc e tal. Daí a escrever um livrinho foi coisa de uma pedalada. Uma coleção de conversas interessantes, fatos inusitados e coisas que só aconteceriam com Byrne, claro.



O texto a seguir relata o contato de David Byrne com o artista/designer Stefan Sagmeister, em Berlim, durante um jantar com Matthias Arndt, um galerista local. Em um certo momento, surge uma conversa pra lá de maluca (e construtiva), que, mesmo não tendo muito a ver com ciclismo, é uma das passagens mais interessantes do livro Diários De Bicicleta – em que o talking head David Byrne compartilha suas visões e interpretações do mundo, enquanto passeia de bicicleta por diversas cidades do planeta.
 


"O problema da beleza

Matthias menciona um jovem pintor formado em Leipzig que agora está fazendo muito sucesso – um artista que ele preferiu não agenciar alguns anos atrás. Na época, ele achou que as pinturas era “bonitas demais”. Ele me explica que tem alguns problemas com a beleza – e sabe que esse preconceito nem sempre age em seu favor. Stefan cita o falecido Tibor Kalman – o designer para quem trabalhava e que também já trabalhou comigo muitas vezes – que costumava dizer: “Não tenho nada contra a beleza, mas ela não é muito interessante”.
Matthias diz que a beleza, por ser efêmera, frágil e inconstante, nos lembra a morte. Eu nunca teria feito esse tipo de conexão – isso me parece romântico demais, como os poemas de Rilke, mas entendo o que ele quer dizer. A morbidez da beleza. Hum. Acho que tratando-se de pessoas – um homem ou uma mulher de incrível beleza – isso me parece verdadeiro, já que essa beleza tende inevitavelmente a se exaurir até algum dia desaparecer por completo. Então, por esse prisma, folhear uma revista de moda é em essência, uma experiência trágica e melancólica. Bom, e pode ser mesmo, mas por outros motivos. Mas e as pessoas que envelhencem com dignidade – que com o passar dos anos ficam mais interessantes ou mais bonitas de um jeito menos tradicional? Para Matthias, uma visita ao Louvre seria deprimente. Muitas vezes, penso na beleza de uma música (algo que desaparece assim que você acaba de ouvir), da imagem efêmera de uma paisagem que irá se renovar (esperamos nós) ou de alguns tipos de objetos que às vezes ficam ainda mais bonitos conforme envelhecem e começam a mostrar sinais de uso e desgaste. Minha amiga C diz que o mesmo acontece com as pessoas – algumas delas demonstram o crescimento em suas feições, tendo um rosto muito infantil quando jovens, por exemplo, sem serem muito interessantes, mas que se firmam melhor como si mesmas assim que começam a mostrar mais idade. Elas não são muito bonitas quando jovens, não profundamente, pelo menos.
Algumas pessoas acham difícil definir a beleza – muitas vezes, as coisas que a princípio achamos feias ou estranhas acabam nos conquistando e descobrimos uma dimensão e uma beleza que podem ser muito mais profundas do que um mero encanto. A definição de beleza é complexa, incostante e muda conforme o tempo. Ela não é absoluta, não pode ser determinada. Se isso for verdade, ninguém pode olhar para alguma coisa ou pessoa e dizer inequivocamente: “É belo”.
Em uma tentativa de defender a noção de um tipo absoluto de beleza, eu li que existem motivos evolucionários e biológicos que explicam nossos critérios para definir a beleza física das pessoas. Nascemos com preferências visuais inatas que tanto as pessoas como os animais usam para julgar a atratividade e a boa forma. Estudos indicam que a simetria, por exemplo, é evidência de um bom desenvolvimento fisiológico – ou seja, que feições faciais simétricas sinalizam uma maior chance de genes mais saudáveis e vigorosos. A implicação inerente nessa teoria é que nós podemos estar biologicamente programados para identificar certas coisas – bem como pessoas – bonitas. A outra implicação é que nós achamos essas pessoas bonitas na verdade por elas serem adequadas e desejáveis como parceiro reprodutivos. Nós a vemos como bonitas, mas estamos pensando em outra coisa.
Suspeito que se essa teoria for verdadeira, isso poderia se estender também a outras áreas estéticas – paisagens e decorações, por exemplo. Por que não? Afinal, algumas paisagens, com seu ambiente tão particular e único, não teriam motivado algum tipo de critério atemporal que serviu de indício para os nossos ancestrais de que ali seria um bom lugar para se viver, caçar, cultivar alimentos e conhecer um parceiro?
O rumo da conversa desvia em certo sentido para o antônimo da beleza – (…)"



Diários de Bicicleta
David Byrne
Editora Amarilys


Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.

Sonho


Dormia. Sono agitado, intranquilo. No sonho, o telefone toca. Ela atende. Alguém fala que o amigo mais querido está internado em uma clínica psiquiátrica. Teve um surto e chama insistente e desesperadamente por ela. A voz é de homem, parece um dublador de filmes, uma voz familiar demais, mas ela não identifica. Meio atordoada ainda, tentando pensar com clareza, pergunta onde fica a clínica. O homem do outro lado da linha dita um endereço. Ela anota e diz que chegará o mais rápido possível. Ela, então, levanta-se da cama e escolhe um vestido vermelho e sandálias douradas de saltos altos, prende os cabelos, passa batom – vermelho, como o vestido – e sai. No caminho, as ruas todas apresentam um tom entre sépia e alaranjado, com uma luz desmaiada surgindo no horizonte. Ela ri. No sonho, ela ri. O carro é conversível e não há nenhum traço de brisa no rosto. Olha em volta e nada se movimenta além do carro e dela própria. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. Já na clínica. A recepção tem os mesmos tons de sépia desmaiada com alaranjado que havia nas ruas. Não há ninguém na mesa onde deveria haver um atendente. Na parede, um quadrinho com aquela foto clássica da enfermeira com o dedo indicador em frente aos lábios pedindo silêncio. A enfermeira da foto na parede usa batom vermelho. Ela espera e espera. Ninguém aparece, nada se move, nenhum som. Senta-se em uma das cadeiras que ficam na parede oposta ao balcão. Muito ereta, o vestido vermelho fazendo dobras harmoniosas contra a cadeira cinza e sem graça. Olha fixamente os ponteiros do relógio que fazem voltas e voltas ao contrário. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. Uma música, como as que tocam em elevadores, começa a sair da pequena caixa de som que fica acima do balcão. Uma porta que leva a um corredor se abre deixando entrever apenas o escuro. Um homem coloca o rosto pela fresta da porta e acena para ela. Ela acena de volta e tenta sorrir. Sente uma imensa culpa por estar tão arrumada naquele ambiente, não saberia explicar o motivo de estar vestida assim. O homem, agora, mostra o tronco pela porta entreaberta. Está com um estranho jaleco branco com botões laterais. Lembra um chef de cozinha. Tem os olhos escuros, nariz adunco e olheiras profundas. O cabelo, também escuro, está esticado para trás como que carregado de algum gel ou coisa assim. Tem entradas. Ela pensa que ele logo será careca. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. O homem aparece inteiro agora, a porta aberta pela metade. Ele lembra um ator de uma dessas peças com ambientação bizarra e assustadora. Usa calças brancas e chinelos de couro vermelhos com uns enfeites esquisitos. Parecem dentes cravados no couro dos chinelos, os lados posteriores abertos como pequenas feridas sangrentas. Faz um gesto que ela imagina ser um chamado. Hesita um pouco, mas acaba por atender. Quer que ela o siga pelo corredor escuro. Ela vai. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. O corredor não é totalmente escuro como ela imaginou. Há pequenas luzes que parecem sair de algum lugar das pareces em intervalos regulares. Nas partes em que a luz permite que algo seja visto, vê que as paredes são recobertas por alguma coisa viva, orgânica, de consistência viscosa e cor marrom brilhante. O corredor parece infinitamente longo e ela percebe que vai ficando mais e mais estreito a cada passo. O homem se volta algumas vezes para trás e lhe dirige um estranho sorriso com o canto dos lábios, um sorriso que não mostra os dentes. Ela imagina se os dentes que estão nos chinelos são dele ou de outra pessoa. O corredor continua e continua e parece cada vez mais estreito e úmido, as paredes mais perto. O chão, agora, também é pegajoso. O homem sorri novamente e diz que logo chegarão ao quarto e ela poderá ver seu amigo. Ele tira a mão do bolso e mostra o bisturi sujo de um líquido brilhante e escuro. Ela sorri e agradece, enternecida. Nos sonhos as coisas são assim, estranhas. Ela acorda, a roupa encharcada de suor. O telefone toca com insistência. Ela espanta a angústia, a confusão, a inércia e atende. Uma voz do outro lado da linha diz que o amigo mais querido está internado em uma clínica psiquiátrica e chama desesperadamente por ela. Na realidade as coisas são assim, estranhas.
 



Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.

Revista para quem curte erotismo

Está por aí desde o ano de 2009, pela Editora Zupi, a revista Erotika. É uma espécie de porfolio com a produção de grandes artistas que criam sobre o tema erotismo e suas variações. Ilustrações, fotografias, quadrinhos, colagem, etc.

A primeira edição trouxe o trabalho do mestre do erotismo nacional Carlos Zéfiro, celebrando suas inesquecíveis tirinhas e resgatando um pouco da vida pessoal do autor. Ainda com foco na despudorada produção nacional, como artista convidado o ilustrador paraibano Shiko, que através de seu traço apresenta um pouco deste tentador universo em ilustrações provocantes.





Há, ainda, a sensualidade das fotografias de Gabriel Wickbold, que através de suas lentes registra banhos de tintas sob corpos nus. Rola também um passeio pelo mundo homossexual de Tom of Finland - espaço repleto de chicotes, jaquetas de couro, músculos e muito testosterona.



Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.

Leiturinha para o final de semana

“Tem gente que nasce rebelde. Lendo a história de Zelda Fitzgerald, identifiquei-me com seu espírito insubordinado. Lembro de passear com minha mãe olhando vitrines e perguntar por que as pessoas não chutavam e quebravam aquilo.” É com esse tom franco e irreverente - e ao mesmo tempo doce e poético - que Patti Smith revive sua história ao lado do fotógrafo Robert Mapplethorpe, enquanto os dois tentavam ser artistas e transformar seus impulsos destrutivos em trabalhos criativos.
Crescida numa família modesta de Nova Jersey, Patti trabalhou em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para Nova York, com vinte anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso. Era o final dos anos 1960, e Patti teve de se virar como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso “verão do amor”. Foi então que conheceu o rapaz de cachos bastos que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de aids, em 1989.
Só garotos é uma autobiografia cativante e nada convencional. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, o livro é também um retrato apaixonado, lírico e confessional da contracultura americana dos anos 1970, desfiado por uma de suas maiores expoentes vivas.
Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição e talento de sobra, os dois viveram intensamente períodos de grandes transformações e revelações - até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens ousadas e polêmicas começam a ser reconhecidas e aclamadas pelo mundo da arte. Ao refazer os laços sinceros de uma relação muito peculiar, Patti Smith revela-se uma escritora e memorialista de grande calibre - e o modo como seu texto reflete a lealdade dos dois é comovente, apesar de todas as diferenças.


Pincelado com imagens raras do acervo de Patti Smith, Só garotos pode ser lido como um romance de formação de dois grandes artistas do século XX, que apostaram na ousadia, na liberdade e na beleza como antídotos à massificação - e contra todas as recomendações.



“O retrato mais fascinante e divertido da descolada-mas-chique Nova York do final dos anos 60 e começo dos 70.” Tom Carson, The New York Times


Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.

Jingle Hell's


E eis que chega aquela época tão temida, o final de ano, com suas comemorações empresariais, presentes estranhos, ceia e árvore nevada com quarenta graus de calor e todas as outras mazelas. E, claro, as férias.
Sendo assim, nosso site também dá uma paradinha básica para tomar um fôlego, farejar novidades, descobrir novos crimes, angariar alguma experiência sexual e outras coisinhas mais. Nos vemos novamente em 15 de Janeiro. E, para cumprir o protocolo, sejam felizes durante as festas e no ano que vem também. Se possível, tentem perseguir o conceito de felicidade pela vida. Vai que dá certo, não é?


Sobre o Autor:
Denise Ravizzoni Denise escreve biografias em terceira pessoa, o que denota leve esquizofrenia. Não lida muito bem com pessoas e as mata na literatura. Denise arregala os olhos verdes para ler o que gosta e tem argolas no nariz... Human Fly.